A Geometria do Vento e o Banquinho da Alma (Ricardo de Faria Barros, Psicólogo)



Era dois de janeiro de dois mil e vinte e seis. Eu estava na orla do Bessa, com a alma lavada de sal e as mãos entregues à arquitetura efêmera de uma piscina de areia para os pequenos. Enquanto levantava muros frágeis contra o avanço inevitável do mar, pensei que viver talvez seja exatamente isso: construir com cuidado absoluto, sabendo que tudo é provisório.


Meus olhos, por vezes exaustos da repetição de corpos em exibição e das queixas automáticas de uma humanidade que parece ter desaprendido o encanto, pousaram em uma cena que não pedia legenda, nem aplausos. Pedia apenas presença.


Se eu pudesse emoldurá-la, diria que o azul do céu de João Pessoa dialogava com uma sequência de guarda-sóis vermelhos ao fundo — como flores estendidas ao calor do verão. No centro dessa aquarela viva, um rapaz de camisa azul, da cor do mar profundo, estava ajoelhado. Não em oração, mas em ação inteira. A areia molhada devolvia sua imagem num reflexo límpido, como se o céu e o chão tivessem selado um acordo de silêncio.


O detalhe que costuma provocar o desvio do olhar ou aquela piedade ruidosa — que mais isola do que acolhe — era uma ausência. Faltava-lhe uma perna. Mas a vida, essa peregrina experiente, não trabalha com faltas; ela trabalha com rearranjos. Ele utilizava uma muleta adaptada e, para encontrar o eixo do mundo, apoiava o joelho em um banquinho simples de plástico. Sem drama. Sem heroísmo de vitrine. Apenas o recurso honesto para sustentar o seu estar no mundo.


Ali, naquele banquinho, residia uma lição silenciosa. Ele não desperdiçava energia combatendo o que era imutável. Usava o que tinha para dar suporte ao que lhe fazia sentido: ele empinava uma pipa. O pescoço inclinado para o alto, os olhos bebendo o azul, o corpo inteiro em conversa com o invisível. Não havia pressa, nem comparação, nem a tirania do desempenho. Havia entrega — daquelas em que o tempo afrouxa o nó e a vida passa a caber, inteira, dentro de um instante.


Ao lado dele, uma moça permanecia de pé. Não como cuidadora, nem como plateia vigilante. Ela estava ali como quem entende que presença não é controle, é confiança. Eles não estavam ali para "dar o exemplo". Estavam apenas se dando à vida. Ele oferecia sua disposição de brincar apesar dos limites; ela oferecia sua escolha de estar próxima sem invadir. Um oferecendo o corpo possível, o outro oferecendo o olhar atento.


Ela não o segurava, pois ele não precisava ser segurado. Mas também não se afastava. Seu sorriso não carregava pena, nem o orgulho de quem "suporta" uma carga. Era reconhecimento. E reconhecer o outro na sua integridade é uma das formas mais elevadas de amar. Amar, ali, não era consertar nada; era acompanhar o voo alheio, aceitando que, às vezes, é preciso sentar para tocar as nuvens.


Fiquei imaginando a cartografia dessa jornada. Quantas manhãs foram necessárias para que ele confiasse naquele banquinho? Quantas frustrações precisaram ser atravessadas até que o ato de sentar deixasse de ser derrota para virar estratégia? E quantas vezes ela conteve o impulso de "fazer por ele", aprendendo que o excesso de ajuda pode ser uma forma sutil de roubar a autonomia?


Pensei em meus pacientes. Em tantos que possuem o corpo intacto, mas a alma claudicante. Pensei em nós, essa humanidade ansiosa e barulhenta, econômica nos afetos e perdulária nas mágoas. Gente que corre maratonas sem sair do lugar, enquanto aquele rapaz, sentado, alcançava o horizonte.


Reparei, então, num detalhe final. Ao fundo, uma criança corria em direção ao mar. Corria com as duas pernas livres, rápidas, como quem ainda não conhece o medo. Naquele instante, algo se encaixou em mim: nem o jovem, nem a criança eram definidos pelo que tinham ou pelo que lhes faltava. Ambos eram definidos pelo mesmo verbo: Viver.


O banquinho foi a maior aula de psicologia que recebi naquele verão. Ele ensinava que o bem-estar não nasce da ausência de dificuldades, mas da capacidade de reorganizar os recursos internos. Que a resiliência não é endurecer, mas adaptar-se sem perder a ternura. A deficiência mais perigosa não era a física, mas a incapacidade de se encantar com o comum.


Aquele jovem não fez da sua dor uma identidade. Ele fez da limitação um pedestal. E ela, ao lado, não tentou clarear o céu por ele; apenas compartilhou a paisagem.


Obrigado, jovens desconhecidos. Vocês não quiseram aparecer, e exatamente por isso, permanecerão. A vida, às vezes, precisa sentar-se num banquinho para nos lembrar que o céu continua sendo um horizonte possível e que o verdadeiro voo acontece quando alguém nos olha sem pressa, sabendo que viver é uma construção, não uma competição.


Ricardo de Faria Barros Psicólogo e observador de vidas que ainda sabem se encantar.

Meus 13 Territórios do Afeto, no Bairro da Prata, em Campina Grande-PB


Caminhar por algumas ruas do Bairro da Prata, em Campina Grande-PB, não é um mero deslocamento físico; é uma peregrinação silenciosa pela cartografia da própria alma. Cada passo reivindica uma memória adormecida, como se o chão reconhecesse a pisada de meus pés muito antes de eu reconhecer o caminho. O cheiro do bairro   uma alquimia de asfalto quente, poeira ancestral e uma umidade teimosa que se agarra às paredes; percorre meu corpo como uma corrente elétrica suave, daquelas que não ferem, mas despertam. É um odor que não se descreve: ele invoca gente, convoca tempo, é a essência de casa.

Observo o meio-fio e vejo plantinhas insurgentes rompendo a crosta de concreto. Pequenas, frágeis, insubmissas. Ali, naquele exato ponto de ruptura, eu lançava meus barquinhos de papel, confeccionados às pressas com folhas de caderno, dobrados mais com esperança do que com técnica. Na alquimia da infância, as águas que desciam da ladeira da Antenor Navarro eram caudalosos rios de aventura. Não importava se carregavam segredos da cidade ou a pureza efêmera da chuva. A fantasia   essa força quase sagrada que nos redime da aridez do real   realizava seu milagre quotidiano: transmutava a matéria bruta em correnteza de sonhos. Hoje, aquelas plantas que brotam nas frestas me parecem oráculos. A vida, quando insiste, sempre traça sua passagem. A esperança, igualmente.

Mais adiante, o tempo parece ter feito uma pausa deliberada na bodega do Seu Tonheca. Ali, os relógios respiram em outra frequência. Davi, o filho mais novo, permanece um sentinela silencioso de uma era que se recusa a escoar. Seu olhar guarda uma fidelidade tácita ao passado, como se sustentasse um pacto: "Alguém precisa ficar para lembrar." A poeira dourada do crepúsculo pousa sobre o balcão, e todo o ambiente parece suspenso   um universo em pausa, tomando fôlego antes da próxima maré do tempo.

A subida em direção ao Hospital Santa Clara impõe um respeito quase litúrgico. É um monumento de paradoxos, onde a vida e a morte dançam a mesma valsa íntima, sem pedir licença. Suas paredes são argamassa de vozes: gemidos, orações murmuradas, promessas seladas em silêncio. Vejo, na memória, a luzinha rosa acesa, pequena e imensa, anunciando a chegada de Priscila   um farol de vida nova rompendo a escuridão. Mas sinto, no mesmo solo, o peso sereno onde papai descansou de suas fadigas. O mesmo espaço que acolhe o primeiro choro abriga o último suspiro. É um território sagrado, onde a fragilidade humana é recebida em lençóis brancos e por mãos que aprenderam, dia após dia, a honrar o que é finito.

No percurso, a sede do GAV se impõe à memória como um sobrado de luz em meio à noite. Fundado em 1994, aquele espaço foi minha escola prática de humanidade. Ali, a autotranscendência deixou de ser conceito para se tornar respiração. Revivo com clareza os rostos dos vinte voluntários: donas de casa, estudantes, desempregados   gente comum que, nas sextas-feiras à noite, transformava o medo da AIDS em abraço, em sopa quente, em escuta sem julgamento. Ali aprendemos, sem tratados, que a vida se expande quando se doa. Onde havia estigma, plantávamos presença. Onde havia desespero, insistíamos em esperança. O GAV não curava corpos, mas salvava sentidos   e isso, muitas vezes, é a cura mais radical.

A fome, biológica e afetiva, me conduz à Feira da Prata. O salão que procuro não se anuncia com placas, mas o cheiro do bode com cuscuz funciona como uma bússola infalível. Na banca que foi de Dona Socorro, o sabor da terra se oferece sem cerimônia. Por trinta reais, renovo o rosto no corte de cabelo; por quinze, garanto o rito do almoço. Penso na simplicidade abundante da minha cidade, tão distante da lógica inflacionada de Brasília. Aqui, o bode é iguaria nobre e o preço é um pacto de honra. Um aperto de mão sem papel, e um desconto pra um estranho, que sela confiança e fideliza as voltas.

Desço a Nilo Peçanha e o coração se contrai. Onde antes se erguia meu colégio   uma floresta encantada para nós, pequenos diante da grandiosidade das árvores   hoje se estende um vazio de ruínas. Desapareceram as construções, as sombras generosas, os bancos improvisados. Resta o silêncio de um terreno baldio. Mas fecho os olhos e ecoam nossas vozes infantis, correndo pelos corredores, rindo alto, acreditando que o mundo cabia, intacto, em uma tarde qualquer. Sinto um impulso quase físico de entrar, recolher um punhado daquela terra e guardá-lo no bolso. Não é sujeira. É relíquia. Testemunha silenciosa. Fragmento vivo do menino que fui.

A rua Dom Pedro II se desenrola diante de mim como um pergaminho da minha existência. Em seu curto quilômetro, ela condensa uma enciclopédia de vida. Foi ali que nasci. Ali que aprendi a nadar no Sesi, desafiando o medo da água com braçadas desengonçadas. Ali vivi o amor, o casamento, a construção de um lar com Joane e a chegada dos filhos. E ali também enfrentei a geografia do luto, o divórcio doze anos depois, quando a casa precisou aprender a pulsar em outro ritmo. Nessa mesma rua, a dor física me visitou com brutalidade, no acidente de moto que quase rompeu o fio da vida. O Hospital Francisco Brasileiro, testemunha daquele susto, ainda me observa de longe. E, logo adiante, a Igreja do Rosário: palco da minha fé em construção. Fui coroinha, sonhei ser padre, liderei jovens. Cada esquina dessa rua tem textura, tom, aroma e voz. E todas, sem exceção, ainda sussurram meu nome.



Ao chegar em casa, o ciclo se fecha com a ternura cotidiana de Dona Celina. O cheiro que me recebe não é apenas de comida: é de juventude condensada. É de tempo amorosamente estocado. Celina, nosso patrimônio afetivo imaterial, que por 40 anos teceu cuidados invisíveis na trama de nosso lar, preparou, como quem decifra almas sem perguntas, a tríade sagrada das gostosuras; pratos que marcaram minha juventude e que, juntos, narram mais da minha história do que qualquer crônica. A farofa de ovos, simples e reconfortante, bálsamo para dias difíceis. O cozido de carne com pirão, espesso e quente, alimento de sustância e presença, que segura o corpo e ancorava o coração. E, para a celebração, a pizza de liquidificador;  improviso generoso e festivo, símbolo dos dias em que a alegria não precisava de motivo para ser convidada. Celina fez os três. Num ato mudo que diz: "Eu me lembro de você inteiro." Entre um café e outro, ela me surpreende ao perguntar pelo meu livro novo. Diz que quer um exemplar. E, aquele pedido tão atencioso, simples, cotidiano e profundamente amoroso, validou toda a minha travessia. Seu interesse pela minha obra foi um abraço na alma, daqueles que não fazem ruído, mas sustentam; um reconhecimento que vale mais que qualquer láurea.

Aos 61 anos, como psicólogo e observador da alma humana, compreendo que somos, cada um de nós, um território vivo. Somos moldados pela geografia que habitamos e, ao mesmo tempo, a moldamos com a topografia de nossas histórias. Criamos conexões de sentido que transcendem o concreto e o asfalto. As ruas do Bairro da Prata não são apenas vias públicas: são artérias do meu próprio corpo, veias por onde corre o sangue da memória. Revisitar esses caminhos não é saudosismo estéril; é oxigenação existencial. A Logoterapia ensina que o passado é um celeiro inexpugnável: nada se perde, tudo se transforma em sentido vivido. Essas memórias nos humanizam, nos desaceleram, nos arrancam do piloto automático e nos sussurram que a vida é feita de encontros, sabores, dores atravessadas e vozes que, mesmo em ruínas, nunca cessam seu canto.

Convido você, leitor amigo, a empreender essa mesma peregrinação sagrada. Caminhe pelas ruas da sua infância. Pronúncia as esquinas da sua história. Que aromas elas guardam? Que perdas e amores ficaram gravados naquelas calçadas? Permita-se recolher a areia de suas próprias ruínas. Você descobrirá que, no grande mosaico da vida, cada fragmento de memória é um tijolo indispensável na construção do seu sentido de ser. Resgatar a geografia interior é, no fundo, um ato de reconciliação consigo mesmo   e a forma mais delicada de aprender a amar, com doçura e respeito, a pessoa que se tornou.

Ricardo de Faria Barros  


Psicólogo | Especialista em Psicologia Positiva e Logoterapia

 


A Madrugada em que o Curral Aqueceu o Mundo (Ricardo de Faria Barros)


Meu nome é Ricardo.

Sou o caseiro do curral numa pequena cidade da Cisjordânia. Minha lida começa às quatro da manhã, quando ainda é noite fechada. Cuido de seis vacas. Tiro o leite duas vezes ao dia, alimento, levo para o pasto, limpo o curral e faço queijo. Cada vaca produz quinze litros por dia. Consigo fazer nove queijos. Cinco ficam com o patrão. Quatro comigo. É com eles que sustento minha família.

Naquela madrugada eu fui trabalhar a contragosto.
Não queria ir. Minha filha Sofia, de dois anos, estava doente, chorando de dor no ouvido. Mas eu precisava dos quatro queijos. Era isso ou nada. Era isso ou faltar comida em casa.

Caminhei os dez quilômetros até a terra do senhor Enoque. Dezembro é o mês mais seco da região. Falta água, o pasto some, o corpo pesa mais. Quando cheguei, fui direto à cozinha preparar o café. Era quatro da manhã. Assim que o cheiro do café invadiu a casa, Enoque se levantou e veio me cumprimentar, com o rosto cansado.

Disse que dormira mal. Que perto da meia-noite alguém batera à sua porta pedindo abrigo. Eram retirantes. Um casal jovem. Disse que não abriu a casa. Que não conhecia aquelas pessoas. Que o quarto de casal estava fechado desde que sua esposa morrera. Preferiu dormir no outro quarto e apontou para o curral:
; Se quiserem se abrigar do frio, que durmam lá. Juntem as palhas de milho.

Disse ainda que a moça era muito jovem e carregava um barrigão.

Tomei o café às pressas e fui iniciar a ordenha. Mas algo me inquietava. Pensei na minha filha doente. No quanto a gente se sente órfão quando um filho sofre. Peguei uma garrafa de café, alguns restos de pão que trazia na bolsa e fui até o curral.

Quando entrei, vi uma cena que nunca mais saiu de mim.

O marido ninava a esposa nos braços, tentando protegê-la do frio. Um bebê dormia no cocho da vaca Estrela. E Estrela, que era vaca parida e costumava ficar brava quando alguém se aproximava de seu bezerro, estava mansa. Deitada ao lado do recém-nascido, como quem vigia. Como quem cuida.

Me aproximei devagar. Me apresentei. Servi o pão e o café. Eles agradeceram com olhos cansados e cheios de gratidão. Contaram que iam para a casa de parentes em Belém, mas a gravidez não esperou. Disseram que bateram em mais de vinte portas. Ninguém os acolheu. Um ameaçou soltar os cachorros. Outro chamou de vagabundos. Um terceiro os confundiu com ladrões.

Contei que minha menina estava doente, chorando de dor, e que mesmo assim eu tinha vindo trabalhar porque precisava do que ganho. Quando falei em queijo, os olhos deles brilharam. Lembrei que tinha queijo feito da véspera. Fui buscar. Parti dois talhos e entreguei ao casal.

O senhor Enoque observava tudo de longe, da janela. Não saiu. Dava ordens à distância, como quem teme se aproximar do que não entende.

O bebê acordou.
E então aconteceu algo que nunca vi.

A vaca Estrela se ajoelhou diante dele. Não era espreguiçar. Era ajoelhar. O bezerro fez o mesmo. As outras cinco vacas, que ainda estavam no pasto, vieram sozinhas, sem eu chamar, e formaram um círculo ao redor da mãe, do pai e do bebê. O calor dos corpos aqueceu o curral. O frio cedeu. Maria pôde abrir os panos e mostrar o menino.

Era um bebê tão belo que parecia que as vacas sorriam.

Tirei um pouco do colostro de Estrela e ofereci a Maria. Disse que fazia bem. Que tinha força. Ela pingou na boca do bebê, que lambia os beiços de gosto. Estrela parecia saber que aquele primeiro alimento também era dela. Depois, Maria encostou o menino ao peito para amamentar.

Chamei o marido para tomar café mais afastado, para deixá-la à vontade. O nome dele era José. Falava coisas difíceis de entender. Dizia que o filho não era dele, mas era. Que um Espírito tinha feito. Que ninguém podia saber, porque ninguém entenderia.

Mas eu entendi.

Depois de tanto peregrinar pela vida, aos meus sessenta e um anos, aprendi que nem tudo se explica com um mais um. Como explicar que do mesmo leite um queijo vinga e outro talha? Que da mesma vaca uma dá dez litros e outra não dá nem um? Como explicar o sol que acorda a vida e a lua que embala os sonhos? Como explicar a dor no coração quando um filho sofre, se não é no nosso corpo que dói?

Disse a José que acreditava nele. Que o Espírito seria sempre seu melhor companheiro, porque cuidava do seu filho. Ele sorriu aliviado, como quem finalmente pode respirar.

Maria me deu um pequeno saquinho com um unguento. Mandou passar no ouvido da minha filha. Mas eu não podia sair: tinha seis vacas para ordenhar. José se ofereceu para fazer isso por mim. Disse que era marceneiro, mas aprendera a tirar leite com um amigo. Confiei.

Corri para casa. Sofia chorava. Passei o unguento no ouvido dela. Na mesma hora, o choro cessou. Ela sorriu. Algo se acalmou no mundo. Meu filho Lucas, que insiste que será médico, trouxe uma papa de leite e farinha. Sofia comeu com vontade. Ficamos cheios de amor e esperança.

Então bateram à porta.

Três homens, montados em camelos, estrangeiros e diferentes de tudo que eu conhecia. Perguntaram se eu sabia de um bebê nascido pela região. Convidei-os a descer, tomar café, leite, comer queijo. Antes de irmos, deixaram presentes para meus filhos. Nunca tínhamos recebido presentes.

Uma boneca para Sofia.
Uma lamparina para Lucas.
Uma caixinha de música para Mateus.

Um deles estava ferido de tanto viajar. Passei o unguento. Ele voltou cantando, dizendo que as feridas tinham sarado.

Antes de retornar ao curral, decidi que não iria sozinho.

Disse aos meus filhos que aquele não era um dia comum. Que precisavam conhecer aquele casal, aquele bebê, aquele mistério vivo. Cada menino subiu em um camelo. Sofia veio comigo, sentada entre meus braços e o corpo quente de Baltazar, o dono do camelo ferido; agora curado.

Levei dois presentes.

Para Maria, um colar de fuxico que minha esposa fizera em noites silenciosas, costurando pano sobre pano como quem remenda o próprio cansaço. Um agradecimento simples pelo bebê que ela gerou e pariu em meio à rejeição do mundo.

Para José, levei um machadinho que ganhei de meu pai. Nunca usei. Guardei por anos sem saber por quê. Naquela manhã, soube. Seria útil ao marceneiro. Herança em mãos certas.

No curral, meus filhos ajudaram, brincaram, riram. As vacas deixaram. O bebê dormiu, acordou, sorriu. Sofia encostou a cabeça perto dele, como quem reconhece um igual. O dia passou sem pressa, como se o tempo tivesse aprendido outra medida.

E o senhor Enoque continuou na janela.

Não por falta de pernas, mas por excesso de pesos.
Pesos antigos.
Pesos não chorados.

Enoque não era mau. Era enlutado. E há lutos que, quando não são atravessados, apodrecem por dentro e viram amargura. O quarto fechado da esposa morta não guardava apenas a memória dela; guardava a vida que ele interrompeu junto. Desde então, passou a viver em trincheira, sempre em defesa, sempre desconfiado, sempre pronto para perder antes de tentar.

Acumulava terra, gado e silêncio.
Acumulava razão, medo e ressentimento.
Mas não acumulava vínculos.

Um coração fechado vai ficando pequeno.
Tudo vira ameaça.
Gente vira risco.
Pedido vira invasão.
Partilha vira prejuízo.

Enoque vivia de mal com o mundo porque, no fundo, estava em guerra com a vida. Uma guerra silenciosa contra qualquer possibilidade de recomeço. Ele via o outro sempre como alguém que poderia tirar algo; nunca como alguém que pudesse trazer sentido.

Enquanto o curral florescia em calor, cuidado e milagre, a casa permanecia fria, organizada, correta… e estéril. Onde não se partilha, nada floresce. Onde tudo se guarda, a alma endurece.

Ele viu tudo.
Mas não se permitiu.

E é assim com muitos de nós.

Vemos a dor do outro, mas seguimos da janela.
Vemos o sagrado acontecer na simplicidade, mas preferimos o isolamento.
Temos pão, teto e histórias; mas não abrimos.

Naquela madrugada, o mundo teve duas moradas:
uma casa fechada, segura e silenciosa;
e um curral improvisado, sujo de palha, mas cheio de vida, calor e esperança.

O Natal não entrou na casa de Enoque.
Passou pela janela.
E seguiu adiante.

Porque o Natal não força portas.
Ele nasce onde o coração se abre,
onde a dor não vira desculpa para a indiferença,
e onde alguém, mesmo cansado, mesmo pobre, mesmo ferido, ainda consegue repartir o pouco que tem;
permitindo que a vida floresça outra vez.

O Disjuntor da Vida: Uma Lição Sobre Luz e Perspectiva

 

O Calor que Fica Após a Chamada

Estou aqui, redeando, como dizemos no Nordeste. O balanço suave da rede embala o corpo, mas o que realmente me aquece é o sentimento que ficou no peito após desligar o telefone. Falei há pouco com minha mãe e, mesmo a centenas de quilômetros de distância, o eco da sua voz me traz um contentamento que preenche a tarde seca de Brasília, aquecendo mais do que o sol do planalto que se despede no horizonte. É nestes momentos simples, no sabor de uma conversa afetuosa, que encontramos a matéria-prima para as reflexões mais profundas sobre o viver. A nossa chamada de hoje, que começou com a narrativa de uma pequena crise doméstica, acabou me presenteando com uma metáfora luminosa sobre a vida.

O Blackout Anunciado: A Tempestade em Campina Grande

A ligação começou com a voz de minha mãe, aos 86 anos, prestes a completar 87 em agosto, soando resoluta, como sempre, mas com uma camada subjacente de preocupação que só um filho consegue decifrar. Ela, em Campina Grande; eu, em Brasília. Ela já foi logo avisando que estava usando os dados móveis, um sinal moderno e universal de que as coisas não iam bem. A preocupação materna, descobrimos com o tempo, é uma força da natureza que ignora completamente as leis da física e da distância.

Ela me pintou o cenário com detalhes. Dezesseis lâmpadas apagadas. Cômodos inteiros mergulhados na penumbra. O modem da internet, morto. Na casa, apenas a geladeira roncava baixinho, como a única sobrevivente de um desastre elétrico. "O que houve, mamãe?", perguntei. A história já estava pronta, lógica e assustadora. Um carro havia batido em um poste na rua na noite anterior. A companhia de energia fez o reparo, a luz voltou, mas apenas para a geladeira. A amiga já tinha dado o veredito: "Queimou tudo". Para minha mãe, a conclusão era óbvia e o caminho, penoso. Sua convicção era tão forte que ela já lamentava não ter nem lâmpadas reservas, pois, em sua mente, todas as dezesseis haviam queimado. Seu plano já estava traçado: mais tarde, iria à companhia elétrica se preparar para o processo burocrático, o desgaste, a luta.

Naquele momento, percebi como nossa mente, diante de um problema, tem uma tendência impressionante de construir o pior cenário possível. Ela nos arma para uma batalha complexa, nos veste com uma armadura pesada e, no processo, nos cega para as soluções que estão bem ao nosso lado.

A Simples Pergunta: E se for o Disjuntor?

Enquanto eu ouvia sua narrativa de guerra anunciada, uma lembrança clareou minha mente. Por estar fora do epicentro do estresse, minha perspectiva não estava contaminada pelo "aperreio" do momento. Lembrei-me de um detalhe da casa que meu pai construiu com tanto cuidado: ele havia instalado disjuntores específicos para cada área.

"Ô, mamãe", eu disse, com a calma que a distância me permitia. "Você já olhou o quadro de disjuntores? Aquele que fica atrás da porta?".

Do outro lado, um breve silêncio, seguido por um "Ah, eu sei onde é".

Cinco minutos se passaram entre o fim daquela chamada e o início da próxima. Um pequeno intervalo de tempo que, para mim, foi preenchido por uma imensa expectativa. Naquele silêncio, residia uma verdade universal: muitas vezes, a solução mais eficaz não é a mais complexa, mas sim aquela que nossa própria ansiedade nos impede de enxergar.

"A Minha Vida Iluminou": A Alegria da Luz Restabelecida

Quando o telefone tocou novamente, a voz era outra. A preocupação havia se dissolvido, dando lugar a uma alegria genuína, quase infantil, daquelas que só uma solução inesperadamente simples pode provocar. A mudança em seu tom era, por si só, uma lição.

E então, ela disse a frase que se tornou o coração desta crônica, a frase que eu guardei comigo na rede:

"Meu filho, deu certo. Era o disjuntor. Tem luz em todo canto. A minha vida iluminou."

Naquele momento, soube que ela não falava apenas das 16 lâmpadas. O "tem luz em todo canto" era a ponte perfeita entre o físico e o emocional. A luz que voltou não era só a da energia elétrica. Era a luz que dissipava a nuvem escura da preocupação. Era o "desanuviar" de um futuro imediato que parecia cheio de formulários, esperas e frustrações. A vida dela iluminou porque um problema que parecia um monstro se revelou ser apenas um interruptor desligado. E isso me fez pensar: quantas vezes, em nossas próprias vidas, o que nos falta é apenas encontrar o disjuntor certo?

A Metáfora do Disjuntor: Encontrando Nossas Próprias Soluções

Todos nós enfrentamos "blackouts". Momentos de desânimo, de estagnação profissional, de confusão nos relacionamentos, em que tudo parece perdido e a escuridão toma conta. E, assim como minha mãe, somos rápidos em encontrar a causa externa, o culpado irrefutável: "foi a batida que derrubou o poste".

Criamos justificativas lógicas que, embora pareçam fazer sentido, nos colocam em um papel de vítima e nos paralisam. Acreditamos que a solução está fora do nosso alcance, nas mãos de uma "companhia elétrica" qualquer. Quando estamos imersos no problema, nossa lógica fica enviesada. Ficamos, como se diz popularmente, "doidinhos", incapazes de ver o óbvio.

É por isso que precisamos de uma perspectiva externa. Precisamos de alguém que, olhando de fora, não contaminado pela nossa ansiedade, possa fazer a pergunta simples que não conseguimos formular. A psicologia positiva nos ensina sobre a importância crucial de uma rede de apoio. Um amigo, um familiar, um terapeuta... eles podem ser a pessoa que nos lembra de olhar atrás da porta, que nos aponta a localização do nosso próprio "disjuntor". Alguém que diz: "Que tal fazer assim?".

Conclusão: Cultivando a Luz e as Conexões

A lição que ficou daquela tarde, balançando na rede, é que a solução para muitos dos nossos apagões existenciais não reside em processos longos e complexos. Frequentemente, ela está em uma pequena mudança de hábito, em uma alteração de comportamento, em uma nova perspectiva. Está em um simples "religar" de uma área da nossa vida que, por algum curto-circuito interno, desligamos.

Como um estudioso da longevidade ativa e feliz, vejo nessa história um pilar fundamental do bem-estar: a necessidade de cultivar relacionamentos e de ter a humildade de compartilhar nossas vulnerabilidades. A verdadeira iluminação na jornada da vida vem tanto da nossa força interior quanto da luz que os outros, com seu amor e sua perspectiva, podem nos ajudar a reencontrar.

Por isso, deixo um convite a você que me lê: qual "disjuntor" em sua vida pode estar desligado neste momento? E, mais importante, a quem você poderia recorrer para ajudá-lo a encontrar o interruptor e fazer sua vida iluminar novamente?

Ricardo de Faria Barros

Um Tesouro de Cinquenta e Cinco Reais de Sr. Evandy



O passado não pede licença. Hoje, ele me encontrou no meio de uma tarefa mundana: arrumar o apartamento. Foi ali, entre livros e gavetas, que um simples pedaço de papel se recusou a ser apenas um objeto e exigiu ser uma memória.
Dentro de um livro antigo, repousava a folha. Ao tocá-la, senti a textura levemente gasta, a cor amarelada pelos anos. A surpresa inicial, a de encontrar algo fora de lugar, rapidamente se converteu em uma onda avassaladora de nostalgia. Ali, não havia apenas tinta, mas a caligrafia de uma das pessoas mais importantes da minha vida.
Em cima, a letra organizada, cuidadosa e firme do meu pai, o seu Evandy!
Embaixo, alguns garranchos meus, a assinatura de um começo ainda incerto. Aquele contraste visual era a metáfora perfeita da nossa relação naquele momento específico, no longínquo ano de 2017: ele, a base sólida e a estrutura; eu, o aprendiz rabiscando os primeiros passos de uma nova jornada. Aquele papel não era um documento qualquer; era a primeira linha do livro-caixa da minha nova vida, escrita com a tinta do afeto.
2017: A Contabilidade do Afeto
O ano de 2017 foi um tempo de reencontros e recomeços. Meus pais haviam vindo de Campina Grande, na Paraíba, para passar uma temporada conosco em Brasília, onde o clã — filhos, netos e bisnetos — havia se estabelecido. A casa cheia tinha o som da família, do afeto que atravessa distâncias para se fazer presente. Para mim, era um período de profunda transição. Recém-aposentado, eu havia mergulhado de cabeça em um sonho: a "ânimo desenvolvimento humano", minha pequena empresa de treinamentos e palestras focada em saúde emocional.
Lembro-me perfeitamente da cena. Eu e meu pai sentados, lado a lado, para fazer o primeiro balanço financeiro da empresa. Ele não estava ali como um espectador curioso, mas como um sócio de alma, um participante genuinamente entusiasmado. Com uma dedicação que me comovia, ele anotava cada despesa que eu ditava, cada pequena receita que entrava — a sessão da Marina, o pagamento do Júnior, a consulta da Denisa, cada R$ 180 que representava um passo — como se o sucesso deles fosse o nosso.
O mais marcante era a sua completa ausência de julgamento. Em nenhum momento ele olhou para os números e disse: “Olha, isso não vai dar certo”. Ele nunca mencionou que o aluguel de R$ 2.000 consumia quase toda a receita ou que o risco era grande demais. Pelo contrário. A cada anotação, ele vibrava. Era um pai lindo, envolvente, que tomou para si aquele momento, curtindo cada detalhe como uma conquista pessoal. Ele transformou uma planilha de custos em um ato de amor.
A Riqueza Contida em um Pequeno Lucro
Depois de somar e subtrair, o resultado final apareceu, cristalino em sua simplicidade. A contabilidade daquele primeiro mês era um retrato fiel de um começo modesto, mas valente.
Categoria
Valor
Despesas Totais
R$ 2.645
Receitas Totais
R$ 2.700
Lucro Final
R$ 55
Cinquenta e cinco reais. Para o mundo corporativo, um número irrisório. Mas para meu pai, eu sei, aquele valor "era 1 milhão". Eu nunca vou me esquecer do semblante dele ao ver o resultado. Ele não via apenas o dinheiro; ele via o renascimento da carreira do filho. Ele enxergava um homem que, após 30 anos de trabalho formal, se recusava a aceitar o vazio da aposentadoria, o ócio sem propósito que ele tanto temia para mim. Para ele, aquele pequeno lucro era a prova material de que meu esforço estava florescendo.
Naquele rosto, havia um orgulho sereno, uma fé inabalável no meu potencial. Aquele olhar dizia tudo: o que importava não era a quantia, mas o movimento, a coragem de começar, a ocupação da mente e do coração. Foi naquele dia que entendi que o verdadeiro valor das nossas conquistas raramente está nos números, mas no esforço que investimos, na coragem que demonstramos e, acima de tudo, no apoio incondicional daqueles que amamos.

A Lição dos Pequenos Passos
A história daquele balanço de cinquenta e cinco reais é o antídoto perfeito para a ilusão do sucesso instantâneo. A internet está cheia de promessas, vendendo a ideia de que existe almoço grátis e que podemos chegar à janelinha do sucesso sem esforço. Esta memória nos lembra que toda grande jornada é construída passo a passo, com dedicação diária e paciência.
É como se preparar para uma corrida de 5 km. Ninguém começa correndo a distância inteira. O processo é gradual: "Corre 200 metros, caminha 100. Corre 400, caminha 100". É preciso celebrar cada pequena vitória, cada metro conquistado, pois são eles que nos fortalecem para o percurso completo.
Que essa memória sirva como um chamado. Seja você a figura de apoio na vida de alguém. Quando um amigo, um filho ou seu parceiro chegar com um projeto, por menor que pareça, ajude a esquematizar, a ver as possibilidades. Seja a pessoa que incentiva, que apoia, que estimula. O crescimento é orgânico. Meus poucos clientes daquela época foram falando para outros, o boca a boca começou a acontecer. Se eu tivesse desanimado com aquele resultado e fechado as portas, aí sim, nada teria acontecido. Desistir é a única forma de garantir que o futuro não chegue.
Gratidão: A Herança que Fica
Agora, seguro este pedaço de papel em minhas mãos. Ele não é mais uma simples folha, mas um tesouro. É a prova física do amor e da fé de um pai, um amuleto que me lembra de onde vim e da força que me impulsionou. É o legado de um homem que sabia que o maior incentivo que podemos oferecer a alguém é simplesmente acreditar.
Obrigado, papai, pela força.

Entre Luzes e Silêncios: o Cuidado Emocional no Fim do Ano (Por Ricardo de Faria Barros)

 


Outro dia, uma mensagem me atravessaram o peito:

“Tenho sentido um aperreio na vida... o coração fica apertado. Quando vejo as luzes coloridas e as vitrines decoradas, dá vontade de dormir e só acordar no dia 1º de janeiro.”

Minutos depois, era minha mãe, de 87 anos, ao telefone:

“Ah, eu adoro essa época! Montar a árvore de Natal é meu ritual. Faço uma festa que dura dias e todo ano coloco um enfeite novo — um símbolo de esperança.”

Duas vozes. Uma que sofre e outra que celebra. Ambas convivem em muitos de nós. O fim do ano tem esse poder: desperta emoções contraditórias e igualmente verdadeiras. É quando o coração se lembra do que viveu, do que perdeu, do que poderia ter sido diferente. Mas é também quando a humanidade parece se enfeitar de luzes, gentileza e gestos mais suaves.

Chamo essa montanha-russa de sentimentos de SFAM – a Síndrome de Final de Ano Melancólica. Mas talvez seja apenas o eco natural da vida, pedindo uma pausa, um pouco de ternura e presença.
É a alma sussurrando: “Respire. Olhe para si. Acolha-se.”

A psicologia positiva nos lembra que não é preciso negar a tristeza para viver bem. Podemos abraçar o que sentimos e, ainda assim, escolher cuidar do que é bom. Podemos estar tristes e, mesmo assim, gratos. Podemos sentir falta e, ao mesmo tempo, reconhecer o que permanece. Podemos, sobretudo, olhar para dentro com compaixão.

É a hora de fazer um Kintsugi emocional.

Os japoneses têm uma arte antiga chamada kintsugi. Quando um vaso se quebra, eles o colam com ouro. As rachaduras não são escondidas; tornam-se parte da beleza. Assim somos nós: cada perda, cada despedida, cada melancolia pode ser colada com o ouro da experiência, do aprendizado, da ternura. O que se quebra pode se transformar em arte, e o que dói pode nos ensinar a amar de outro jeito.

E há outro lado nesse tempo do ano. Enquanto alguns vivem a saudade, há também os que vivem a alegria — montando árvores, reunindo famílias, preparando ceias. E não há contradição nisso: há humanidade.

O fim de ano é, de alguma forma, um convite universal para sermos mais humanos. Parece que o mundo inteiro fica mais sensível. As pessoas se permitem sentir, lembrar, perdoar. Permitem-se reaproximar, aceitar diferenças, abrandar julgamentos. Talvez porque o Natal, em seu sentido mais amplo, seja isso: um tempo de reconciliação com a vida.

Mesmo quando o coração está cansado, as luzes continuam acesas. Podem estar mais suaves, mais íntimas, mais lentas, mas estão lá, dentro de nós. As luzes do Natal também se acendem no interior do coração humano — ainda que pareçam tímidas ou apagadas. Elas falam conosco em outro tom, um tom de lembrança, de cuidado, de ternura silenciosa. E é essa luz que nos lembra que, apesar de tudo, a vida segue, pulsando em nós.

Alguns gestos simples de autocuidado neste período:

  • Respeite seu tempo. Não é preciso forçar a alegria nem se envergonhar da saudade.
  • Abrace o que sente. Emoções não se combatem; se acolhem.
  • Pratique a autocompaixão. Seja gentil com suas falhas, seus limites, sua história.
  • Celebre, se quiser. E, se não quiser, também está tudo bem. O amor não exige festa; apenas presença.
  • Deixe a luz entrar, mesmo que aos poucos. Ela está aí, esperando o momento de brilhar em você.


E agora, um convite especial: enquanto você cuida de si, lembre-se que ao seu lado pode haver alguém sofrendo em silêncio. Alguém que sumiu, que não dá mais notícias, cujo "Abrir presentinhos sozinha, mãe" era um pedido de socorro disfarçado.

Vamos fazer um mutirão do afeto?

Que tal resgatar quem nunca mais apareceu? Quem se isolou? Quem está entrando em sofrimento e acha que ninguém se importa?

  • Ligue para aquela pessoa.
  • Mande uma mensagem de verdade, não só um "Feliz Natal".
  • Faça-a se sentir vista, lembrada e amada.

Este pode ser o maior presente: a certeza de que ninguém vai soltar a mão de ninguém. O cuidado com o outro é também uma forma poderosa de cuidar de nós mesmos.

E para quem não gosta do Natal e Ano Novo?

Se para você esta época não traz nenhuma nostalgia boa, apenas obrigação, barulho ou a sensação de estar deslocado, saiba que seu sentimento é válido. Não há nada de errado em você.

O convite, então, não é para celebrar as datas, mas para honrar o seu próprio ritmo. Permita-se:

  • Ignorar a festa sem culpa.
  • Criar seus próprios rituais: um bom livro, um filme, um passeio na natureza, um dia de total quietude.
  • Desligar-se das expectativas alheias. Sua paz é o seu maior presente.

O recado de "respeitar seu tempo" e "abraçar o que sente" é, talvez, ainda mais importante para você. O verdadeiro espírito desta época pode ser, simplesmente, a permissão para ser exatamente como você é — com ou sem luzes.

O maior presente de fim de ano é tratar a si mesmo com respeito e bondade. É entender que tudo passa, que o amanhã pode ser mais leve, que há beleza mesmo nas marcas da dor.

O kintsugi do coração é feito assim — colando as fraturas com o ouro da esperança. O importante é que a colagem seja feita por suas próprias mãos.

E que, ao olhar para dentro, você reconheça: ainda há vida, ainda há amor, ainda há recomeço.

Que neste fim de ano, possamos ser artesãos de nossa própria paz e faróis uns para os outros. Porque no grande tear da vida, cada fio — de alegria ou tristeza — é precioso. E o mais belo mosaico humano é aquele feito justamente da coragem de quem se reconstrói, e da mão estendida de quem ajuda a costurar as partes quebradas.

 

🌦️ Crônica de Novembro – A Black Friday da Alma (por Ricardo de Faria Barros)

 



Novembro é o mês da véspera.

E eu não sei se você é como eu — desses que se alegram antes mesmo da festa começar. Que saboreiam o cheiro do pão antes do forno abrir, que sorriem só porque há algo bom vindo de longe. Novembro é isso: um prenúncio doce de que a vida ainda vale a pena esperar.

Há algo de profundamente humano nas vésperas. Elas nos lembram que a alegria também mora no “ainda não”. E novembro é o “ainda não” mais bonito do calendário. É quando o tempo começa a se despir das pressas, das culpas, das mágoas que acumulamos como folhas secas nos cantos do coração. É quando o vento muda o tom da alma, e as pessoas começam, sem saber por quê, a desejar o bem.

Como se toda a humanidade, instintivamente, fizesse uma Black Friday emocional.
Em novembro, ofertamos perdão a preço de custo. Distribuímos ternura em suaves prestações de empatia. Reeditamos nossa esperança em promoções de leveza. E o melhor: tudo gratuito.

É o mês em que os “bom dia” saem mais espontâneos, as mensagens são respondidas com mais afeto, e até os cães parecem abanarem o rabo com um pouco mais de gentileza. A vida, de repente, fica mais disponível.

Talvez seja porque as chuvas serôdias chegam — essas que caem quando ninguém mais acredita. Elas lavam o pó da secura emocional e irrigam, generosamente, as flores dos afetos adormecidos. Novembro é uma chuva tardia de coisas boas, um banho de energia positiva que nos prepara para o fechamento e a abertura de novos ciclos.

É tempo de trocar as mudas — as das plantas e as da alma. De renovar a pele das emoções. De reciclar o humor, o olhar, o sentir. É tempo de dizer: “Vamos lá, você consegue!”.

Novembro é esse intervalo sagrado entre o que já foi e o que ainda vem.
Um ensaio de esperança.
Um sorriso em estado de véspera.

E eu, que sempre gostei de finais que anunciam começos, só posso dizer:
Novembrei. 🌻

💫 Dicas para Novembrar:

🌿 1. Faça seu inventário emocional.
Antes que o ano acabe, abra as gavetas da alma e veja o que ainda precisa ser perdoado, deixado ir ou simplesmente aceito. Desapegar é o melhor desconto que a vida oferece.

🌞 2. Exercite a gratidão retroativa.
Olhe para trás e agradeça até o que não deu certo — talvez aquilo apenas tenha lhe redirecionado para um caminho mais luminoso.

🌼 3. Reative suas pequenas alegrias.
Novembrear é reconectar-se com o prazer das pequenas coisas: o café coado na hora, a flor que brotou sozinha, o abraço demorado, o pôr do sol que não cobra ingresso.

🌈 4. Reaproxime-se de quem importa.
Ligue, escreva, envie um áudio, um bilhete. A ternura precisa de voz. Em novembro, as relações florescem quando regadas com presença.

🍂 5. Plante algo — literal ou simbólico.
Pode ser uma muda, um projeto, uma nova rotina, ou uma promessa a si mesmo. Novembro é solo fértil para recomeços.

6. Colha o que cultivou.
Reconheça suas conquistas — as visíveis e as invisíveis. A cada passo dado, há um florescimento interno que merece ser celebrado.

💧 7. Tome seu banho de chuva afetiva.
Permita-se sentir, chorar, rir. Não seque as emoções. Elas também são formas de limpeza.

🎁 8. Faça do bem seu presente antecipado.
Doe tempo, atenção, gentileza. Novembro é mês de generosidade gratuita — o tipo de promoção que nunca deveria acabar.

🕯️ 9. Acolha o silêncio.
Entre um ciclo e outro, há um instante de pausa. É nele que a alma respira.

💖 10. Espalhe a leveza.
Sorria mais. Julgue menos. Cuide da própria vibração — porque quem novembreia bem, contagia o mundo com sua serenidade.

Novembrear é deixar-se chover por dentro — sem medo de molhar os sonhos.
É permitir que a ternura se instale nas entrelinhas da vida.
É dançar no compasso das vésperas, com o coração preparado para o que vem.

E quando dezembro chegar, com suas luzes e seus balanços, as pessoas que souberam novembrear não estarão exaustos — estarão serenos.
Porque aprenderam a viver o mês das transições como um convite à leveza e à renovação.
Saberão brindar a chegada do Natal não com o peso do que faltou, mas com a gratidão pelo que floresceu.

E assim, de alma lavada e coração esperançoso, seguirão adiante, colhendo o melhor que a vida oferece a quem tem coragem de viver com doçura as suas vésperas.
Porque, no fundo, novembrear é isso: continuar acreditando — mesmo quando o ano parece cansado — que o amor ainda é o maior presente da humanidade.

📸 O perigo não é esquecer; é não registrar.


O amigo Pergentino me mandou um zap da Europa.

Pois, a filhinha dele, a Lia, vendo fotos antigas no Facebook, queria saber o nome do cachorrinho que abraçava numa imagem. Era o Balu, o meu labrador, ainda um filhote. 🐾 Aquela foto era um fragmento da infância dela no Brasil. Um pedacinho de história que uma imagem salvou. E isso me fez olhar paro o nosso fim de semana, de 17 a 19/10/2025, em Pirenópolis-GO. No qual, conseguimos reunir nada menos que 21 famíliares. Uma multidão do bem, do bom e da alegria. Mas, hoje tive um choque: "Temos alguma foto com os 21?", pensei. Não. A memória ficou só no feeling. Percebi que saímos da era de registrar tudo para todos. Para o extremo de não registrar nada para ningué*. As novas gerações, com sua filosofia do “viver o momento”, e nós, com certo cansaço das redes, estamos criando um vácuo de memórias. O perigo não é a falta de exposição. É a falta de arquivos sociais. É não ter o nosso Balu pra mostrar no futuro. A chave não é voltar à obsessão de antes, mas encontrar o equilíbrio: 📷 registrar o essencial, para quem importa. Não é tirar a foto pro nosso futuro eu, porque o eu está conectado a outros eus. É para nós. É pra celebrar, agradecer e mostrar por onde passamos, o que vivemos, quem somos, e as coisas boas pelas quais lutamos e confraternizamos. ✨ Hoje o João Gabriel tem 16 anos. E não fotos. Uma pena. As fotos são muito mais do que lembranças. São fontes de esperança, retratos do caminho que já trilhamos, pistas de onde viemos e de quem somos. As fotos também nos mostram que podemos superar momentos. Lembram que tivemos dias bons, porque ninguém registra tristeza, só os instantes de afeto e alegria. ❤️ As fotos são calmantes da alma, são tônicos dos músculos vivenciais, fragmentos preciosos do humano jeito de ser. Ver Lamentações 3:21 São histórias que falam, cheiram e aquecem corações. Eternizam o instante, pra que as novas gerações possam também se conectar; e dar prosseguimento à caminhada. Na foto, de uns 13 anos atrás, o João Gabriel (16) está dentro da casinha do Balu (um labrador), e da Duquesa (uma Fila Brasileiro). Amanhã, mostrarei para ele.

Crônicas Anteriores